terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Caim

É impossível ler Caim sem passar ao lado de toda a polémica que Saramago criou à volta deste livro. No entanto, de todos os que aparecem a defender Saramago sempre que este é atacado por católicos ou pela própria Igreja, quantos realmente leram a obra Caim?
Na verdade nunca li nenhum livro de Saramago, mas decidi ler o Caim para perceber melhor tudo o que se diz por aí. Quando me pus a ler Saramago pensei: " Eh pá vou me pôr a ler uma merda pesada, boa mas dificil de digerir." Por acaso de vez em quando gosto de ler obras pesadas, mas não estou para isso neste momento. O que sucedeu no entanto foi completamente o contrário, a obra é muito leve, lê-se muito bem, mas... não é boa (para mim). Embora não tenha lido mais nada de Saramago, tenho a certeza que não foi por este tipo de literatura que Saramago ganhou o prémio Nobel, se bem que quem dá um prémio Nobel da Paz ao Obama, também é capaz de entregar outros prémios Nobeis a quem não mereça.
Saramago ataca com unhas e dentes o Antigo Testamento, de facto uma obra sangrenta e cruel que mostra um Deus muito vingativo, sem qualquer tipo de misericórdia e sem senso de justiça. Tudo isto podeia ser verdade, mas o conceito de justiça que havia quando se escreveu o Antigo Testamento não é o mesmo que hoje, as histórias presentes no Antigo e Novo Testamento não podem ser levadas à letra, à apenas que retirar a ideia (a moral da história), apreendê-la e saber que devemos segui-la ou Deus punir-nos-á, não podemos levar a história de Job ou de Sodoma e Gomorra à letra.
É verdade que o Homem pode criticar a justiça divina, para isso basta olhar-mos para o mundo à nossa volta, mas será que deve criticá-la? Aquilo que eu me apercebo é que se a justiça divina é má a do Homem é péssima, mais uma vez, olhemos à nossa volta.
Voltando mais profundamente à obra literária de Saramago, a história do livro é a de Caim que assassina o irmão Abel por este ser o preferido de Deus e Deus condena-o a vaguear pelo mundo. Depois disto Caim passa pelos principais momentos do Antigo Testamento, queda dos muros de Jericó, a Torre de Babel, Sodoma e Gomorra... e vai perdendo a fé em Deus com tudo o que vê.
Os diálogos entre Deus e Caim são sempre construídos de modo a que Caim fique "por cima de Deus", Saramago critica uma obra antiga mas usa estes diálogos de modo muito actual, chegando ao ponto de pôr no pensamento de Caim conhecimentos cientificos. Sente-se na escrita de Saramago que o escritor começa, a partir do momento em que Caim começa a pôr em questão Deus e as suas acções, a simpatizar com Caim e a descrevê-lo de forma benévola. Esqueceu-se que Caim matou o irmão, ou basta não gostar de Deus para se ser boa pessoa?
Depois ao longo do livro Saramago tenta escrever com humor. Só isto basta para nos fazer rir, o livro falha completamente nas passagens humoristicas por um simples facto: basta ouvir Saramago falar para perceber que ele não tem qualquer tipo de sentido de humor.
Para mim a ideia mais sensata que Saramago nos passa encontra-se no ultimo parágrafo. Querem saber qual é? Leiam...
Não posso deixar passar em claro o facto de Saramago e muitos comunistas mostrarem um ódio enorme pela Igreja Católica e a acusarem de milhares de mortes, então e o comunismo que matou e continua a matar? Para o sr. Saramago e seus acólitos a Igreja é má, mas o comunismo é um bom exemplo?
Deixo a pergunta: Quem matou mais pessoas, a Igreja ou os regimes comunistas?
Outro facto que me preocupa, é o de muitos ateus se mostrarem hoje mais fanáticos do que a própria Igreja. A diferença entre ateus fanáticos e católicos fanáticos é ZERO.
Deixo aqui algumas passagens interessantes de Caim:
"Quanto ao senhor e as suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraisos existentes no espaço celeste."
Abel dedicava-se à pecuária, Caim à agricultura: "Há que reconhecer que a distribuição de mão-de-obra doméstica era absolutamente satisfatória, uma vez que cobria por inteiro os dois mais importantes sectores da economia da época."
"...Por serem, como se diz, inescrutáveis os vossos designios, perguntou caim, Essas palavras não as disse nenhum deus que eu conheça, nunca nos passaria pela cabeça dizer que os nossos designios são inescrutáveis, isso foi coisa inventada por homens que presumem ser tu cá, tu lá com a divindade."
"Chorar o leite derramado não é tão inútil como se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos."
"...almocreves somos e pela estrada andamos. Tanto sábios como ignorantes."
"...nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde."
"...Eis o que diz o senhor, deus de israel, pegue cada um numa espada, regressem ao acampamento e vão de porta em porta, matando cada um de vocês o irmão, amigo, vizinho."
"...Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus..."
"...Como sempre tem sucedido, à minima derrota os judeus perdem a vontade de lutar (...) a choradeira verbal é inevitável."
"... caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus..." (nota-se que saramago começa a simpatizar com o caim desta história, porque se começa a rever nas suas ideias).
" Apesar de assassino, caim é um homem intrinsecamente honesto..." (MAIS PROVAS?????)
"... admites então que haja no universo uma outra força, diferente e mais poderosa que a tua, É possível, não tenho por hábito discutir transcendências ociosas..."
"...talvez não saibas que os barcos flutuam porque todo o corpo submergido num fluido experimenta um impulso vertical e para cima igual ao peso do volume desalojado, é o principio de arquimedes..."
P.S. Sou agnóstico.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fome

Infelizmente e por falta de tempo, não tenho vindo aqui tantas vezes quanto as desejadas. Razões? Trabalho, mestrado e problemas pessoais que muito me inquietam.

Mas venho escrever sobre um filme que vi à bem pouco tempo e que recomendo vivamente (infelizmente tempo para leituras não existe mesmo, já me bastam artigos cientificos).

O filme que sobre o qual escrevo chama-se, Fome.

O filme retrata as condições desumanas a que se sujeitavam os presos do IRA na Irlanda do Norte, durante a greve da sujidade e do cobertor. Os presos recusavam a farda de prisioneiros, usando apenas um cobertor, na sua sela a latrina não tinha papel e as paredes eram castanhas (sim, exacto, adivinharam), recusavam banhos ou qualquer outra forma de higiene.

Neste bloco da prisão sofriam os presos (por opção), os guardas, médicos e todas as pessoas envolvidas com estes agentes.

Além desta realidade tão bem retratada no filme, acompanha-mos a greve de fome de Bobby Sands e a lenta deterioração e agoniante deterioração do seu corpo.

A vida de Raymond Lohan, o guarda prisional que vivia apavorado e marcado por tudo o que se passava no bloco.

Neste filme que retrata factos veridicos da luta dos militantes do IRA para obterem o estatuto de presos politicos, destaco também o magnífico diálogo entre o pároco da prisão e Bobby Sands, quando este decide que vai fazer greve de fome até ás ultimas consequências. Um diálogo a roçar a perfeição.

Vejam

domingo, 11 de outubro de 2009

Gato Preto Gato Branco

Grande filme de Emir Kusturica.
Adorei ver este filme, ao contrário de Underworld, Gato Preto Gato Branco (GPGB) é um filme, na minha opinião, bem melhor.
Se Underworld é um grande filme no princípio, conforme o filme avança vai-se diluindo a sua qualidade, com Kusturica a complicar demasiado a acção para fazer passar ideias simples. O final do filme é mesmo anarquico e alternativo demais na minha opinião.
Já GPGB, é um filme em crescendo em que acabamos a dar gargalhadas com as personagens e com situações caricatas. Ao contrário da muita filosofia que é descorrida sobre esta obra, na minha opinião, este filme é apenas e só uma grande comédia, e que comédia... Uma comédia muito inteligente que com uma acção mais simplificada, consegue passar na perfeição as ideias do autor, e é claro um filme baseada em ciganos tem de ser muito rico em falcatruas e situações surreais.
Uma palavra para os cenários deste filme, simples mas deliciosos.
É também justo referir que não há filmes com melhor banda sonora, que os filmes de Emir Kusturica. Por vezes dá vontade de nos levantarmos e dançar.
Como grande fã de Tim Burton que sou, tenho de referir que me parece haver uma tendência Burtoniana na obra de Kusturica, em personagens marcantes e muitas vezes irreais, e em situações hilariantes e utopicas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Acordado

Este filme de 2007, tem como actores principais Hayden Christensen, Jessica Alba e Terrence Howard.

É um bom filme para quem tiver uma hora e meia de tempo morto e quiser aproveitá-la com algo produtivo, visto o filme ser leve, interessante e de apenas 1h20m, que acabam por voar.

O filme é uma adaptação cinematográfica de uma obra literária.

O roteiro do filme tem como base uma operação de transplante de coração, feita a Clay (Hayden Christensen), em que este embora adormecido, consegue ouvir o que se passa à sua volta e sentir todos os procedimentos da operação. É algo que acontece muito raramente durante as operações, o paciente está a dormir, mas consciente de tudo o que se passa à sua volta, estando em profundo sofrimento porque sente tudo o que lhe estão a fazer, e em agonia porque não consegue transmitir o que sente.

É durante a operação que se apercebe a trama do filme. Se numa certa altura o roteiro é previsivel, o final é inesperado.

Não posso adiantar mais sobre esta película, pois de outro modo ficar-se-ia a conhecer o filme antes de o ver.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Plano Infinito

Depois de ler a bela obra de Homero, A Iliada, decidi ler um livro mais "leve", O Plano Infinito (PI) de Isabel Allende(IA).

A dicotomia entre estes 2 livros é por demais evidente, mas será o de IA pior? Ok, a Iliada é um clássico e é um livro "pesado", mas o Plano Infinito é noutro prisma, também um livro bastante bom. Isto só prova que a literatura não precisa ser pesada para ser boa. A literatura divide-se em 2 blocos apenas, boa e má.

O PI conta-nos a história de vida Gregory Reeves, o companheiro/marido (não sei bem), de IA que ela já nos dá a conhecer na sua obra, Paula.

IA aproveita a história de vida de Gregory Reeves para passar por toda a história dos EU, desde a Grande Depressão até ao inicio dos anos 90.

O livro é recheado de boas personagens, desde Gregory Reeves o homem atormentado pela sua infância e pela guerra, um homem à procura de um caminho para a felicidade e que normalmente a procura no sitio errado, como muitos de nós.

Depois temos Pedro Morales, o patriarca da familia do ghetto mexicano, e sua esposa Inmaculada Morales.

Carmen ou Tamar, a personagem oposta a Gregory Reeves, pode-se dizer que um é a face boa da vida e as escolhas certas e outro a face oposta, com opções erradas.

É dificil descrever todas as personagens, a familia de Gregory, o pai, a mãe e a irmã, é uma familia disfuncional, mas que representa bem um certo estereótipo de familia existente.

As mulheres de Reeves, que nos representam a futilidade e a coqueteria de grande parte das mulheres ocidentais.

Enfim, um manancial de personagens que IA tão bem sabe construir e explorar de forma sublime e que nos faz pensar que isto não é apenas uma obra de ficção, isto existe mesmo.

A parte do livro que mais gostei, foi a parte dos anos 60 e a revolução hippie, IA dá-nos uma visão absolutamente realista daquilo que eram os hippies, e com a qual eu concordo inteiramente. IA mostra-nos que toda a existência passava acima de tudo por não fazer nada, arranjar desculpas e razões para fazer grandes orgias e ter sexo com tudo e todos, e claro as drogas. No meio da revolução hippie apenas se aproveitou o rock n'roll. Aliás a geração hippie foi a mesma geração que lançou a febre consumista e materialista, dos anos 70 e 80. Alguém consegue desmentir isto?

Ao que se resume esta obra: "NA VIDA NUNCA SE CHEGA A NENHUM LADO. VIVE-SE, NADA MAIS."




terça-feira, 1 de setembro de 2009

Rocknrolla

Este filme parece um malho de AC DC ou de Guns N' Roses, o ritmo é intenso e frenético e agarra-nos do principio ao fim do filme.

A história do filme? Bem vou tentar!

O filme é quase um filme puzzle com várias acções paralelas, que decorrem entre si e com influência umas nas outras.

Uma estrela do rock que é dada como morta afinal está viva e consegue encontrar o significado da existência humana num maço de tabaco.

Dois produtores discográficos são chantageados.

Um mafioso local com ligações ao negócio das construcções.

Uma quadrilha de bandidos que faz trabalhos para outros mafiosos.

Uma contadora que engana os próprios clientes e que deixa meio mundo apaixonado.

Um mafioso russo que quer entrar no negócio das construcções locais.

Um senador corrupto.

Um gangster gay.

Um bufo.

E por fim, o mais importante, um quadro que é emprestado depois roubado depois descoberto depois comprado depois achado e que pelo caminho muda sempre a história do filme.

UUUUUUUUUUUUFFFFFFFFFF!!!!!

Bom basicamente é isto, baladas e bandas tipo Radiohead aqui são só para meninos, o ritmo é alucinante.

O guião é excelente e estou rendido por completo ao Sr. Guy Ritchie.

Ficamos à espera do, Verdadeiro Rocknrolla.

sábado, 29 de agosto de 2009

Identidade Kubrick

Vi o filme Identidade Kubrick (IK)e ao contrário da maioria das críticas que vi na net, o filme não me desiludiu antes pelo contrário. Posso até afirmar que ainda bem que não vi antes as críticas na net, pois assim deixaria de ver o filme, e agora ao pensar nisso vejo que teria perdido um bom filme.

IK é uma daquelas comédias que não nos faz soltar gargalhadas, mas ficamos do inicio ao fim com um sorriso aparvalhado na cara. Durante uma hora e meia esquecemos os problemas que nos rodeiam e a nossa vida e concentramo-nos nas aventuras do burlão Alan Conway (AC).

AC é um burlão, alcoólico e homossexual, que se faz passar por Stanley Kubrick (SK). Durante todo o filme AC engana as mais diferentes pessoas, o homem do talho, uma banda de heavy metal, criticos de cinema... enfim qualquer pessoa a quem pudesse roubar um apetecivel projecto, dinheiro ou por apenas umas horas de sexo.

O mais "nonsense" em todo o filme é que AC, nem sequer conhece a obra de SK, o que não o impede de enganar meio mundo.

Ao contrário da grande parte das criticas que li na net, penso que o filme alcança o objectivo a que se propõe, ser uma comédia que nos faz apaixonar, odiar, divertir e ter pena da personagem principal. Penso que o objectivo do realizador nunca foi fazer uma homenagem a SK, fazer uma obra-prima ou uma grande critica a Hollywood e ao show business.

Uma das criticas com que concordo é o facto de John Malcovich arrebatar o filme completamente para si, o seu AC é deveras fantástico e embora seja um grande boneco, também há por ali muito John Malcovich.

Enquanto vi o filme e as suas situações mais caricatas perguntava a mim próprio: "E se fosse eu a ser burlado desta maneira, não cairia também?" A resposta é: "Sim cairia.". De facto o ser humano não é dificil de enganar, basta ter à sua frente uma figura credível, ou melhor uma figura que pensemos ser credível, e ouvirmos exatamente aquilo que queremos ouvir. A partir deste momento estamos prontos para a "matança".

A verdade é que visto de fora, as burlas de AC parecem fazer parte de um qualquer cenário Kafkiano. Visto por dentro, bom visto por dentro, o guião do filme é baseado em factos veridicos e AC existiu mesmo.